domingo, fevereiro 26, 2017

Um sorriso na tempestade

Tem sempre algo que nos impede de nos perdermos em uma tempestade. Para ela, foi algo ocorrido muito, muito tempo atrás.

Enquanto a tempestade rugia do lado de fora, ela olhava assustada pela janela e via as árvores se sacudindo como espantalhos gigantes. Os ramos, longos braços ossudos, já não tinham mais folhas, arrancadas pelo furação que iniciara há pouco. 


Placas do telhado eram arrancadas sem misericórdia e ela as via rolando no ar para um lugar incerto enquanto a casa toda tremia. O mundo parecia desmoronar à sua volta e ela procurava um lugar para se esconder ou algo onde se segurar, mas o furacão tornava-se cada vez mais forte e mais placas eram arrebatadas sobre a sua cabeça.

Os móveis começavam e se arrastar ainda que lentamente, resistindo ao vento que já estava por todos os lados, dentro e fora da casa. Ela soltou o batente da porta e tentou correr para um lugar seguro quando sentiu que as pernas não a obedeciam. O seu próprio corpo parecia não mais lhe pertencer. Ela reuniu as últimas partículas de força e se arrastou junto ao pé da mesa de madeira maciça da sala. O único móvel que ainda resistia àquela fúria da natureza.

Os gritos delas eram abafados pelo constante trovejar e o som continuo de estática no ar, como se o próprio motor pulsante do planeta tivesse saído do centro da Terra e girasse ao redor... e dentro dela.

Chorar não cabia mais, então ela apenas esperou, agarrada ao pé da mesa, as pernas elevadas no ar, os cabelos esvoaçando e chicoteado o seu rosto. Por entre os cabelos e folhas que rodopiavam descontroladamente, ela viu rachaduras surgindo no assoalho, serpenteando lentamente em sua direção abrindo fissuras por onde ela antes caminhava segura.

Os seus objetos mais preciosos estavam sendo destruídos, arremessados para todos os lados. Porta-retratos com momentos dos anos recentes eram vistas agora por lentes trincadas, desfigurando memórias de um tempo feliz. As porcelanas e os vasos de plantas rolavam pelo chão e desapareciam na profunda fenda que se formava no chão.

É o fim, pensou ela. E, naquele instante, ela sentiu-se impotente e com raiva. Ela pensou que, se houvesse mesmo um Deus, que ele tivesse piedade da sua alma. Seus braços estavam cansados e tensos agarrados ainda à mesa que, milagrosamente ainda estava colada ao chão.

Os seus olhos ardiam com o vento que golpeava suas córneas como finas e afiadas lâminas. Algo acertou a sua testa com força e uma das mãos se libertou da grossa e resistente madeira. O seu corpo fez um meio giro no ar e outro objeto acertou em cheio o seu peito, bem no coração. A dor foi tanta que ela não resistiu. Soltou a outra mão e o seu corpo foi sugado pelo telhado agora escancarado, sendo arrastado para dentro daquela massa compacta de fúria.

Ela girou a uma velocidade inimaginável dentro do redemoinho que se formara do lado de fora, e na confusão de sons e agitação, tudo na sua memória desapareceu com exceção de uma lembrança que ficara tão para trás que criara raízes em sua alma sem que ela tivesse percebido.

Ela tinha seis anos e estava sentada no colo do seu pai, abraçada ao pescoço dele, sentindo-se protegida e amada. Então, ela se afastava e olhava para ele, sorrindo. Os olhos meigos dele por trás da grossa armação dos óculos lhe sorriam de volta e ela diz "eu te amo, papai" e ele suspira. "O que foi, papai?" pergunta ela com aquela curiosidade divertida. "Ah, esse sorriso... Você sorri com a alma. Nunca perca isso, minha filha" diz ele com uma pitada de melancolia que ela não percebera na época. E como se caísse durante um sonho, ela sentiu o corpo sacudir e depois ser atirado contra uma superfície pontiaguda, banhada e fria.

Suas costas estalaram e a dor foi pungente. Ela abriu a boca, mas não gritou. Seus pulmões não deixaram. E o ar também não entrou pela sua garganta. Era como se ela estivesse se afogando por dentro.

Apesar da dor, ela apoiou as mãos no chão cheio de pedras e ergueu o tronco lenta e dolorosamente. O peito então se abriu e ela inspirou todo o ar que conseguiu. Exalou e inspirou novamente, e mais uma, duas, três vezes até ter certeza de que estava mesmo viva.

Ela olhou em volta e os estragos eram avassaladores. Não havia mais casa, árvores, ruas nem jardins. Era tudo uma massa de destroços, um emaranhado de madeira, ramos, troncos, folhas, pedras, tijolos... tudo triturado e espalhado pelo chão.

Por um instante ela quis chorar de raiva, de tristeza, de solidão, mas não o fez. Só depois de contemplar a extensa destruição à sua volta, sabendo que apesar de tudo ela ainda estava viva, foi que ela chorou. Começou baixinho, cheio de tristeza. Depois, foi num crescente de ira, dor, indignação e desespero.


Ela fechou os olhos e pediu, que se houvesse um Deus, que lhe desse forças para reconstruir um novo lar. Quando os abriu novamente, viu um tímido, porém corajoso, raio de sol atravessando as nuvens e se perdendo no ar. E ela sorriu.


"Ah, esse seu sorriso...." disse-lhe o seu pai. E o raio de sol desapareceu...., mas ela continuou sorrindo.

sexta-feira, fevereiro 24, 2017

Os cabides no armário

Começando a preencher o vazio.
No guarda-roupas, pelo menos...
A aliança ainda está no dedo, o armário ainda está vazio, mas o lugar especial no seu coração ainda é do outro. Aquele espaço que antes era ocupado pela cumplicidade, companheirismo e amizade está vazio e você se dá conta de que o vazio pesa.

Ele é um buraco negro apavorante e ao mesmo tempo tentador. O seu único desejo é de se fechar em suas lembranças com medo de que elas e os longos anos juntos sejam sugados para o infinito, extirpados de você sem misericórdia pelas últimas mensagens trocadas cheias de rancor de ambos os lados.

"E por que não seriam?", pergunta-se o Medo. "Aquele laço que outrora era visto como indestrutível não o era, afinal. Por que as lembranças seriam?"

"Porque elas estão imunes à dor" responde a Esperança. 

E você se agarra a elas para que todos os anos a dois não se transformem em mera ilusão. 

"Mas eles foram uma ilusão", afirma a Amargura. "Assim como aquele tempo afastados que você propôs na tentativa de acertar as coisas", continua. "E quando a sua filha lhe perguntar se amor verdadeiro existe, não minta. Tal coisa não existe".

"Será que desistimos cedo demais?" pergunta-se o Remorso.

Os hormônios estão em ebulição - principalmente se você for mulher na casa dos 50 - e domam você como se fossem fios atados à uma marionete. Você estará, ora no chão, ora nas alturas; jogado para a direita e depois para a esquerda, para cima e para baixo até que a tensão nas cordas se desfaz e você é deixado no chão, imóvel, cansado e confuso. 

Manter a mente sã durante esta tempestade é como se agarrar ao mastro de um barco à vela. Você não deixará de se sentir nauseado, tonto, amedrontado e fragilizado, mas ao menos não vai se perder no mar turvo das emoções. 

A tempestade vai passar um dia, mas, por hoje, talvez você se contente com apenas os cabides no armário.

quinta-feira, fevereiro 23, 2017

Sobre fantasmas e flores


Uma separação é mais do que a saída de um dos cônjuges, é o fim de uma jornada a dois para dar início a uma longa e dolorosa jornada solo (na maioria das vezes). Não há vitorioso, todos perdem um pouco. Principalmente quando há filhos. Talvez esta seja a única situação em que não haja exceção.

Em um relacionamento, construímos família e sonhos, e o fim dele é como ver estes sonhos se transformar em um mero eco do que deveria ter sido. É como olhar um espectro. É sentir o reflexo de um membro amputado sabendo que aquela parte sua jamais existirá novamente, mas ainda assim, o sentimos. E é doloroso e assustador.

Não importa quem tenha tomado a decisão, isso não quer dizer que a pessoa que o tenha feito esteja feliz ou mesmo tivesse desejado aquilo. Às vezes, é apenas porque alguém tem que fazer o que tem que ser feito.

Quando o rompimento não foi causado por uma terceira peça neste jogo a dois, o fato de dizer “basta” não implica em não sofrimento para quem o diz. Talvez, seja ainda mais difícil para esta pessoa manter-se firme na sua decisão sentindo o próprio coração se partir em pedaços, vendo a imagem sólida daquele plano futuro se esfumaçando aos poucos enquanto se tenta segurá-la entre os dedos, sentindo apenas a impotência diante do inevitável fim.

Como qualquer perda, a separação é um luto e, como tal, deve ser tratado com respeito e vivido para ser curado. As fases que o seguirão poderão ser longas ou curtas, visíveis ou apenas sentidas - profundamente – enquanto o sorriso estampado no rosto insiste em dizer ao mundo... “Estou bem”.

Quando as portas se fecham e cada um se encontra sozinho em seu novo mundo, em sua nova dor, em seu luto, é quando tudo desmorona. Quando não se tem mais nada a ser dito, é que as piores coisas são faladas. No lugar do "eu te amo", surge o "eu te odeio". No lugar do "admiro você", o "você não vale nada" e nada é suficiente para extravasar a dor até que as feridas de ambos já não suportam mais tanta agressividade. E quando a batalha verbal termina, vem o vazio e a necessidade de se entender o por que, onde foi que ambos se perderam. E vem o arrependimento, o desejo de recomeçar, de fazer tudo diferente, mas o que foi quebrado nem sempre se pode consertar.

Alguns se apoiam na família durante o percurso; outros, nos amigos, no trabalho, nos hobbies, na música ou até no próprio silêncio. Outros ainda, encontram um aliado em uma nova paixão, trazendo para a ferida já aberta da relação uma pitada de acidez. Mas, afinal, todos têm o direito de ser feliz mesmo que, daquela conversa tão sofrida, tenha se passado apenas alguns dias ou um mês; mesmo que ainda houvesse um fio de esperança.

Todos têm direito de ser feliz e a felicidade do outro visto do profundo sentimento de perda daquele que ficou para trás, dói indescritivelmente. Nem sempre por ciúmes, inveja ou egoísmo, mas pela crua realidade de que aquele lugar especial ao lado dele ou dela, não é reservado mais a você. Que todos os anos em que você lhe dizia a mesma coisa sem ser ouvido, ele ou ela agora ouve da boca de outra pessoa...e presta atenção! As mesmas palavras, talvez. E isso não faz sentido para você.

Saiba que reconstruir-se é uma arte, às vezes a quatro mãos. Mesmo que aquele outro par de mãos não seja o seu. É nesta hora que você tem que abrir o seu coração, colocar para fora toda a angustia, dor, raiva, medo e sofrimento. Olhar para dentro de você e procurar, em algum lugar, um novo sentido para a sua vida.

E, finalmente, dizer pela última vez: "Eu amo você. Pelos lindos momentos que estivemos juntos, por tudo o que lutamos e conquistamos. Por tudo o que sofremos e choramos. Por tudo o que sorrimos e amamos. Por tudo o que aprendi com você."

Quando só sobram espinhos, o jeito é tirar, um por um, dia após dia, lágrima após lágrima, na certeza de que aquela flor brotará novamente um dia.

domingo, agosto 24, 2014

Por que não sou como as árvores?

Na minha idade, não cabe mais perguntar qual o meu lugar no mundo. Eu já deveria ser uma árvore com frutos maduros e raiz firme, parada, pronta a alimentar ou servir de porto seguro. Mas que nada. Não sou assim e continuo me perguntado o que há de errado comigo.

Às vezes me sinto como aquela peça estranha no quebra-cabeça que se encaixa em vários lugares, mas nunca é o certo e vai parar à margem daqueles montinhos onde as peças são agrupadas por cor, desenho ou formatos. Mas não tenho um montinho próprio. Sou apenas uma estranha à espera da última peça faltando. A cor sem cor chamada Flicts, do Ziraldo.

Mas não é isso o que eu quero ser. Não é isso o que sinto. E sei que não estou só. Somos parte de um sistema padronizado do qual nenhum rótulo se encaixa. Somos uma nova raça, talvez. Ainda não codificada, cujo único momento em que me sentimos inteiras é quando nos calamos no nosso mais absoluto silêncio e ficamos em contato com aquela centelha, uma minúscula parte de nós mesmos, que nos entende. Naquele ínfimo momento, somos tudo, somos livres, somos sós e felizes.

E, finalmente, encontramos a nossa classificação: outros.

Não me sinto melhor com isso. Não quero uma classificação, afinal. Sou um coringa, um camaleão, o X da equação. Sou aquela última peça, sim, que vai preencher o vazio na tela quando o quebra-cabeça terminar. E, por não me encaixar, me encontro. Comigo mesma. De novo e somente. E não há nada de errado comigo. Só não sou palmeira, coqueiro, carvalho ou pinheiro. Não tenho raízes presas ao solo. Talvez só não tenha nascido para ser uma árvore.

Sou pássaro, água, vento, fogo; algo que vem, cumpre a sua missão, passa e vai embora. Segue caminho, vai adiante, mesmo que, às vezes, a saudade de casa doa. E, nestes dias, penso “por que não sou como as árvores?”.


E me dou conta de que as árvores nunca poderão conhecer nada além das suas próprias terras. Já os pássaros sempre podem ir e voltar.