Certa vez me disseram que o ser humano, em geral, teme a felicidade, que muitas vezes, ao aproximar-se dela, crê no seu fracasso mais do que na vitória e se afasta. Não, eu não sou assim. Vou em busca dos meus sonhos, acredito neles e só desisto quando um sonho melhor surge em seu lugar. Mesmo assim, ainda custo a acreditar nos dias atuais.
Foram mais de dois anos correndo atrás de documentos, viagens de São Paulo da Itália, da Itália para São Paulo, de São Paulo para Minas, de Minas para São Paulo, de São Paulo para Milão, de Milão para Minas, para São Paulo, para consulados, prefeituras, cartórios. Centenas de telefonemas, milhares de obstáculos, prazos que se estreitavam, leis que mudavam, noites de insônia, dinheiro evaporando, falta de trabalho; excesso de crítica, poucos mas valiosos apoios.
Restrinjo-me ao parágrafo anterior na citação das etapas, altos e baixos dos últimos dois anos e meio de luta, pois o resultado de tudo fala por si só. E este foi que, depois de cinco anos de um casamento não oficial, ao lado dos meus filhos maiores (uma de vinte e um de vinte e um anos), a nossa filha caçula casou a mãe com o pai ao colocar as alianças em nossos dedos.
Ela sabia o quanto aquele momento era especial. O quanto havíamos esperado por ele e quantos obstáculos havíamos superado. Juntos, todos juntos. E os seus olhinhos, brilhando ao olhar em volta, olhando para trás e sorrindo para os novos amiguinhos italianos (que há poucos meses não se interessavam muito por aquela pequena brasileirinha que mal falava o idioma). Naquele momento, ela sentiu-se mais do que "um deles". Sentiu-se mais importante do que qualquer outra pessoa, pois todos estavam ali vendo-a casar os próprios pais. Hoje, ela se comunica, se defende e se destaca, no idioma que antes mal podia falar.
Meu filhos maiores assinaram o livro de testemunhas do nosso casamento. Colocaram seus nomes para selar a união entre a mãe e um pai que, embora não os tenha gerado, os tem no coração e os ampara como se fossem seus. Colocaram seus nomes como testemunhas de uma relação na qual poucos acreditavam e muitos a queriam destruída. Colocaram seus nomes para dizer que estamos todos juntos, sempre.
Ninguém jogou arroz na noiva, embora aqui também se façam coisas assim. Jogaram bexigas, coloridas e de todos os tamanhos. Iniciativa de convidados de coração puro, alma limpa e cheia de vida. Ainda sinto-me plena de todas aquelas cores, aqueles sorrisos, aqueles brilhos nos olhinhos curiosos e abismados. Ainda estou plena de felicidade e orgulho de todos nós.
Dois dias depois, mais uma vitória nos elevou aos céus. Meu marido assinou a cidadania italiana. É o começo de uma outra vida que nasce entre as pedras do jardim. Uma nova vida que enche o nosso futuro de luz, oportunidade e garantia. Garantia de que estamos no caminho certo. Garantia de que, quando se enfrenta os problemas junto àqueles que se ama, não há limites para a determinação, para a crença e a esperança. Há sempre um túnel, escuro e longo à sua frente, mas quando se estende a mão para o lado e encontra uma outra, quente, firme e forte para segurar, não importa o quão longo e escuro seja o caminho.
Outros túneis virão, mas não me assusta. Estamos em pé. Mais do que nunca!
Dedico este testemunho a você, Paulinho, que faria 20 anos no dia em que me casei. Por você, conheci seu pai, Por você, acreditei em seu pai. Por você, apaixonei-se pelo seu pai. Por você, brigamos com o mundo e, graças a você, viemos para a Itália. Você é e sempre será o nosso anjo que ilumina o nosso caminho a as nossas vidas. A você, na sua também festa de aniversário (sem que ninguém soubesse que o era) foram dedicadas todas aquelas bexigas, para que o seu mundo, esteja onde você estiver, seja sempre alegre e colorido.
Que a vida continue!!!!!

