Meu visto para o inferno


Este texto deu o que falar! Recebi muitos emails de pessoas que pensam como eu e outros contrários, é claro. Apesar das críticas (uma delas muito pesada e pessoal), não retiro uma palavra do que eu disse. Ao contrário. Reafirmo e, depois de publicá-lo incialmente no site O Boletim (do qual me orgulho muito de participar como colunista há quase cinco anos), publico-o agora, no meu blog, para reforçar minha opinião.

Obviamente que minha falta de crença em Deus não se dá apenas pelos fatos que narro abaixo, estes são apenas alguns dos aspectos, pois não quis me alongar muito no assunto.

Divirta-se, critique, opine, mas acima de tudo, respeite a opinião alheia assim como respeito todos os que creem em todas as religiões, santos, divindades ou qualquer coisa que seja.
Já está no forno o "Meu visto para o inferno - parte II".. aguarde.

Meu visto para o inferno

Eu sou um caso perdido. Não acredito em Deus, nas instituições religiosas e nem nas pessoas excepcionalmente boas. O ser humano não é totalmente bom. Ele tem sentimentos de raiva, de revolta, de rancor, de mágoa, de vingança, o que são incompatíveis com os excepcionalmente bons. Ninguém assim conseguiria viver num mundo como o nosso. Não sem sofrer muito e enlouquecer. Se existem estes seres iluminados, não são humanos. Estariam aqui com uma missão extra terrestre para evoluir o espirito humano? Pode ser! Eu creio em ETs.

Para mim, as religiões foram criadas para dominar o homem pelo medo, e conseguem até hoje! Medo do juízo final, da reencarnação, são muitas as formas de terror psicológico usadas pelas religiões para ter os homens sob seu domínio.
Deus? Se ele existiu um dia, criou a centelha da vida e desapareceu, ou dormiu no sétimo dia e acordou só para incendiar Sodoma e Gomorra e, ainda inexperiente de seus poderes paranormais, causou um dilúvio universal!

Não acredito em santos nem oro a eles. Aliás, não oro a nada nem ninguém. Imagine milhões e milhões de pessoas orando, pedindo, rogando! Faço a minha parte deixando o balcão dos desejos sem as minhas lamúrias. Passo a vaga adiante!

A quem recorro em momentos de dor? A um analgésico. E quando me dói a alma, respiro, choro, me descabelo! E um dia ela passa. Ou não. Aprendo a conviver com ela.

Mas acredto na fé! Esta, sim, possui uma força absurda, porque as pessoas que creem o fazem com tanto fervor que, por sua capacidade de crer, podem até atingir seus objetivos. São elas que operam seus milagres, não o Santo Expedito, São Judas ou o São-qualquer-coisa-que-seja!

E eu tenho fé! Tenho fé na Física, tenho fé no bem, tenho fé no amor e tenho esperança, acima de tudo. Estou sempre esperando... mas, na dúvida, não fico de braços cruzados.

Não aceito crimes contra a vida humana. Mas, confesso, já desejei o mal a alguém (talvez alguns...). Não me orgulho disso, mas não me envergonho. Afinal, sou humana!

Crianças são sagradas. Não se toca em criança, não se abusa de criança, não se faz qualquer mal a uma criança. Mas o mundo está cheio desta crueldade e, se existisse um Deus, ele não permitiria. Mas ele permite e não adianta me dizer que é tudo um plano divino, que é o livre arbítrio ou que a maldade vem do homem e não de deus e que ele não tem nada a ver com isso. Nada justifica a omissão divina sobre os momentos de dor e abuso sofridos por uma criança.

Não aceito muito menos o argumento de que é um resgate de erros cometidos no passado. Esta criança de hoje não sabe porque está sofrendo. Porque está sendo queimada com pontas de cigarros, porque está acorrentada, sendo espancada e sentindo fome ou porque está sendo penetrada à força numa agonia que pode levar horas, dias, meses ou anos, por um ou vários algozes!
E, se isso enoja você, aposto que não é a metade do sofrimento que milhares de crianças estão passando neste exato momento, enquanto - talvez - você ache um total absurdo minha associação do sofrimento à não existência de Deus. Que ele salve as crianças e mostre a sua face pura, santa e cheia de amor! Aí, talvez, eu comece a acreditar no seu poder, bondade e justiça!
Eu poderia aceitar tudo coexistindo com Deus e entender que Ele é Ele e o resto é consequência do próprio homem. Menos isso. Os crimes contra as crianças são, para mim, a mais pura prova da inexistência deste Deus tão louvado, adorado, salve salve. Não, este Deus, para mim, não existe e se existe é o mais perverso arquiteto humano!
Mas, antes que os fervorosos religiosos me dêem um visto para o inferno (como se já não estivéssemos todos nele!), respeito a crença alheia (seja ela qual for) e concordo que seja preciso acreditar em algo, pois viver na sombra da crueldade humana é como se debater num terreno movediço. É preciso ver o sol, a luz e a beleza da vida! E eu acredito! Oh Lord, I believe!!
Acredito no amor e que ele pode transformar uma vida sombria em uma leve e doce existência. Acredito no bem que existe dentro de mim e dentro de muitas pessoas que conheço. Creio que este bem esteja tentando promover o equilíbrio necessário na sociedade. Se este equilíbrio já existe ou não, depende do ponto de vista de cada um.

De onde vejo o mundo e os homens, ainda faltam muito, mas chegaremos lá!


(foto: “Fome”, do conjunto Exilados Na Fome, do fotógrafo Arnaldo Carvalho, vencedora do Prêmio Esso 2009)

Comentários

Dila Pereira disse…
Érika !

Você sabe que esse um assunto que nós duas talvez tenhamos pontos de vista diferentes. Não que hoje, eu acredite na igreja como um dia já aconteceu.
Mas ainda creio na fé, e que algumas pessoas consigam expressar bondade através dela. Li uma frase esta semana que dizia "Uma boa religião é aquela que faz da pessoa, um alguém melhor." Eu concordo.. mas infelizmente as pessoas (uma grande parte delas) que estão à frente das religiões não se tornam melhores, ao contrário, se aproveitam da ingenuidade e da fé para ferir, das maneiras mais cruéis que o ser humano é capaz.

Já recorri a Deus e já briguei com Ele pelo mesmo motivo. Coisas que meu coração não conseguiu até hoje aceitar.

Mas para as pessoas que te criticaram na forma pessoal e dolorida, por sua posição, polêmica, porém honesta, e respeitosa com quem acredita, para esta pessoa que te julgou, se ela diz crente em Deus, eu deixo uma pergunta:

Quem teve uma atitude mais cristã, segundo os preceitos da Igreja:

- Você, que afirma não acreditar, que se revolta com as atrocidades e injustiças dos membros da igreja, mas respeita aquele que tem alguma crença...

- ou esta pessoa que se escondendo atrás do manto de religiosidade, te julgou e ofendeu de forma pessoal e deselegante até, esquecendo de um dos preceitos mais populares do Cristianismo ? "Não julgueis para não ser julgado".

De nada adianta se pronunciar como cristão, se as atitudes não condizem com as palavras e com a aparente postura.

Como diz a própria Biblia: "Este povo me honra com os lábios, mas seu coração está longe de mim. Em vão me prestam culto, porque a doutrina que professam são preceitos humanos." (Mt 7, 6)

E vivas ao bom debate !!