De novo, Saviano


Já falei de Roberto Saviano (foto) no dia 30 de outubro e vou falar de novo. Não me canso de divulgar o trabalho, a garra e o rastro que este jovem jornalista/escritor deixou aqui, na Itália. Ainda mais que, a partir do dia 15 de dezembro, livro e filme ganharão as livrarias e telas brasileiras.

Se no Brasil o tráfico de drogas comanda os morros, as ruas, as escolas, a noite e - dizem as más-informadas línguas - financia campanhas de políticos graúdos, na Itália, a máfia é a válvula pulsante do país, em todos os aspectos. A trajetória desta força motriz, suas ramificações e consequências, são contadas, com detalhes, no livro "Gomorra", do jornalista Roberto Saviano. O livro deu origem ao filme homônimo. Imperdíveis!

Antes mesmo de vir para a Itália, já ouvia falar em Saviano. Ao pisar em solo italiano, porém, passei a sentir - e não mais a ler - o que este jovem escritor representa para o país. Roberto Saviano é, hoje, conhecido no mundo todo, mas, estar na Itália é mais do que saber quem é Saviano. É respirar a história deste jovem, ou sufocar-se junto a ele.

Saviano está presente em praticamente tudo. Da música à educação. Cidades promovem a leitura de Gomorra, em praça pública, por horas seguidas. São dezenas de voluntários que se revezam na leitura até a última página. Dois anos depois do lançamento do livro, Saviano já recebeu o título de cidadão honorário da maioria das cidades italianas.

Uma das músicas de maior sucesso entre os jovens foi, no verão passado, "Cappotto di legno", do rapper Lucariello. Fala da morte de um escritor pela Camorra, baseada, claro, na história de Saviano, este jovem que, depois de lançar o livro (em 13 de outubro de 2006), passou a ser perseguido e ameaçado pela máfia.

Em outubro deste ano, a polícia interceptou um plano para matar Saviano no dia do Natal. Foi a gota d´água para que o escritor anunciasse que pretende deixar o país. Desde o enorme sucesso do livro, Saviano vive sob escolta do governo italiano; não tem residência fixa; sua família teve que se mudar e, aos 28 anos, é, hoje, um jovem cuja vida social e familiar foram reduzidas a zero.

Depois do anúncio da intensão de sair da Itália, premiados com o Nobel iniciaram uma campanha que exigia pulso firme do governo italiano no combate à máfia. Em poucos dias, a campanha teve a adesão de mais de 170 mil pessoas, pela internet.

Saviano é vítima do seu próprio sucesso. Como ele mesmo diz, a máfia não se importa que se fale sobre ela, desde que seja uma voz isolada. A partir do momento que o livro foi correndo pelo país e escancarando o esquema de corrupção, assassinatos e abusos cometidos pelo crime organizado, Saviano passou a ser uma pessoa marcada para morrer.

O livro, minha primeira aquisição literária na Itália, expõe a infiltração da máfia desde o tráfico de drogas, passando pelos aterros sanitários até a confecção de roupas de grifes famosas. Esta última, confesso, fiquei impressionada com a simplicidade do esquema e vale contar um pouquinho para vocês.

Figurões das grandes marcas italianas reúnem-se com representantes de pequenas e médias confecções em locais nada sofisticados. Começa o "leilão". A confecção que oferecer o melhor preço e menos tempo de entrega, ganha o contrato. O tecido, porém, é distribuído igualmente entre todas as concorrentes, que passam a fazer os mesmos produtos. Resultado. Se a confecção vencedora não cumprir o acordo, a grife pode, facilmente, comprar de qualquer outra. O que foi produzido pelas outras confecções invade o mercado negro através do crime organizado, chegando a outros países com preços (e etiquetas) de grife! (por que será que me lembrei da Daslu...?)

Pasquale é um destes costureiros que, com requinte, produz vestidos facilmente vistos no tapete vermelho do Oscar. Em um relato comovente, Saviano fala da tristeza e revolta com que o costureiro simples reagiu ao ver, pela televisão, Angelina Jolie vestida com uma de suas criações. Quanto ganha Pasquale? Quanto cobram as confecções por cada vestido? Leiam o livro...

Este é apenas um dos esquemas da Camorra, que banha com sangue seus negócios.

Mas não pensem que, apesar de tudo, Saviano é uma unanimidade. Não é. Gomorra mostra as entranhas de uma sociedade criada pela falta de oportunidades e pelo medo. E esta, despreza Saviano. Já que a Camorra, como toda máfia, é uma prisão onde vivem milhares de pessoas que dependem direta ou indiretamente dos "empregos" promovidos por ela. Para contar toda esta história, Saviano baseia-se em milhares de páginas de processos criminais e informações próprias (confirmadas por investigações policiais) dos diversos episódios que ele mesmo viu ao infiltrar-se em algumas situações, como no porto de Nápoles, a porta de entrada e saída dos produtos contrabandeados da China diretamente para a Camorra.

Penso, cá com os meus botões, quantos jornalistas denunciaram (e ainda denunciam) esquemas violentos de corrupção, fraude, roubo e crimes promovidos por autoridades, políticos e governantes, no Brasil? O que acontece com eles? Qual o apoio que recebem das autoridades, da sociedade e de seus chefes de redação?

Na Itália, a máfia sempre existiu e sempre vai existir, muito embora, depois de Saviano, a caçada aos chefes camorristas se intensificou, com prisões (sem habeas corpus) e confisco de bens. No Brasil, o tráfico de drogas e o crime organizado também terão vida longa. A diferença, são os Savianos e o povo brasileiro.

Deu pra entender?

(foto: Speranza Casillo)

site pessoal de Saviano: http://www.robertosaviano.it/

Comentários

Dila Pereira disse…
já está na minha lista de leitura !
Grazie pela dica, rs !
bjs
Camila disse…
Acredito que, no Brasil, o poder do tráfico deve estar quase chegando ao ponto que está na Itália. Em especial do grupo surgido nas cadeias paulistas. Ouvi denúncias de que o transporte urbano de São Paulo é quase todo dominado por essa quadrilha. Nada comprovado, mas não dá para não desconfiar. O difícil é alguém ter coragem de denunciar, pois o programa de proteção à testemunha no Brasil ainda é muito fraco e deficiente. Enfim... adorei a dica do livro e, assim que chegar ao Brasil, procurarei lê-lo.
Wander Veroni disse…
Oi, Érika!

Meu blog e o seu são quase xarás por terem Café no nome...hehehe...confesso que foi isso que me motivou a vir aqui te visitar. Ao ler este post me deu vontade de ir correndo comprar esse livro reportagem sobre o tráfico de drogas (e influências) da Itália. Já tinha ouvido falar do filme, mas não sabia ao certo do que se tratava. Com certeza vou assistir. Que preço esse jovem jornalista está pagando por fazer o seu trabalho, hein!

Abraço,

=]

-------------------
http://cafecomnoticias.blogspot.com
Anônimo disse…
Oi, Érika.

Li também o livro e vejo também uma provável relação dos esquemas de importação da Daslu com a Camorra. Acho que isso deveria ser melhor investigado por nossas autoridades. Com certeza existem braços da máfia aqui que a gente nem imagina.

Adorei a crítica.

Abraço.